quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

Humberto Delgado



Humberto da Silva Delgado nasceu em 1906 em Torres Novas. A sua educação passou pela frequência do Colégio Militar, tendo terminado os seus estudos em 1922.
Participou activamente no movimento militar de 28 de Maio de 1926, que conduziu mais tarde ao Estado Novo. Anos depois rompeu relações com o regime de Salazar, apresentando-se em 1958 como candidato à Presidência da República, tendo como opositor Américo Thomaz. Após uma campanha eleitoral activa, onde conquistou o apoio popular, acabou por ser derrotado, apesar de tanto ele como a oposição em geral nunca terem aceite os resultados.
O "General Sem Medo", como ficou celebrizado, teve de se exilar (primeiro no Brasil, depois na Argélia), nunca tendo no entanto deixado de dirigir acções contra o regime.
Foi assassinado a tiro em 1965, perto de Badajoz, por um membro da PIDE, apesar de o regime nunca ter assumido oficialmente as responsabilidades. Contudo, a sua luta não foi em vão: a opinião pública que o apoiava tornou-se num grave problema para a política de Salazar.

Elementos Simbólicos de "Felizmente há Luar!"




    • O verde da saia que a viúva leva para a execução de seu marido associa-se à felicidade e foi comprada numa terra de liberdade: Paris. A saia é uma peça eminentemente feminina e o verde encontra-se destinado à esperança de que um dia se reponha a justiça. O verde é a cor predominante na natureza e dos campos na Primavera, associando-se à força, à fertilidade e à esperança.






    • A luz surge como metáfora do conhecimento dos valores do futuro (igualdade, fraternidade e liberdade), que possibilita o progresso do mundo, vencendo a escuridão da noite (opressão, falta de liberdade e de esclarecimento), advém quer da fogueira quer do luar. Ambas são a certeza de que o bem e a justiça triunfarão, não obstante todo o sofrimento inerente a eles. A luz representa a esperança num momento trágico. 
     
     


    • Na obra há inúmeras referências à noite: “Ontem à noite entraram mais de dez pessoas na casa de…”; Mas como, Matilde, como é que se pode lutar contra a noite?”. De fato, é durante a noite e madrugada que se efetuam as prisões e as execuções prolongam-se pela noite. A noite simboliza a escuridão, a morte, a tristeza.
     
     
     


    • Moedas de cinco reis- Símbolo de resrespeito que os mais poderosos mantinham para com o próximo, contrariando os mandamentos de Deus

     


    • Os tambores representam, em Felizmente há luar! a opressão, o medo, que existia nesse tempo quando chegava a polícia.
     
     

    Felizmente há Luar - Espaço e Tempo

    ESPAÇO

    Espaço cénico

    -          O espaço cénico contribui para a construção de sentidos da obra, expondo a dimensão ideológica da mesma. Os sons, os jogos de luz/sombra, os objectos decorativos e a posição das personagens em palco são os elementos a destacar.

    -          Manuel, situado num espaço cénico dominado pela escuridão, é subitamente exposto à luz, ocupando um lugar à frente do palco. O carácter simbólico da sua presença é posto em evidência através dos seguintes aspectos:

    ·         Manuel, enquanto símbolo do povo oprimido, traduz a estagnação de um país, a impossibilidade de mudança, pela repressão imposta pelo Poder, através da sua pergunta absurda, do gesto de impotência e dos trajes andrajosos que veste;

    ·         A escuridão que rodeia a personagem sugere o abismo que a engole, enquanto representação da miséria, da ignorância e da opressão;

    ·         A nível da movimentação, a impossibilidade de continuar, por parte da personagem («detém-se»), indicia a perda irremediável do general Gomes Freire e, em consequência, a perda da esperança.

    Espaço físico

    -          Lisboa surge como um macroespaço, onde se inscrevem espaços de dimensão mais reduzida:

    ·         Ruas – local onde os populares mendigam e comentam os acontecimentos, embora sempre intimidados pela presença da polícia
    ·         Rossio – sede da Regência
    ·         Rato – casa do general
    ·         Sé – local onde Manuel costuma pedir esmola
    ·         Campo de Sant’Ana – local das execuções (posteriormente será designado por Campo dos Mártires da Pátria)
    ·         Serra de Santo António – local de onde Matilde assiste à execução do marido
    ·         S. Julião da Barra – local onde Gomes Freire é preso e sentenciado


    Espaço social

    Classes sociais: Povo / Poderosos

    -          O povo é caracterizado pela sua pobreza, doença e miséria: o vestuário andrajoso, os sacos e caixotes que servem de acomodações, o contínuo mendigar.

    -          Os poderosos, pelo contrário, surgem representados na sua riqueza ostensiva e arrogante (guarda-roupa cuidado, cadeiras como «tronos»).

    Conflitos políticos / sociais

    -          No período posterior às Invasões Francesas e à partida da corte para o Brasil, o reino vive uma conjuntura política e social marcada pela crise e pela luta entre um poder repressivo e a aspiração da liberdade que conduzirá à revolução liberal:

    ·         O Conselho de Regência, que integrava oficiais ingleses e membros do clero, mantém uma política de tirania, repressão e perseguição de todos os que se insurgissem contra o poder oficial.

    ·         A atitude persecutória dos governadores é particularmente evidente na condenação e proibição das sociedades maçónicas e qualquer tipo de associação.

    ·         O povo, descontente, votado à miséria e ao silêncio, mas desejoso de liberdade, confere ao general Gomes Freire o estatuto de herói, já que representa a única esperança de revolta contra a opressão.

    Valores sociais em crise

    -          A impotência do povo contra o despotismo

    ·        Manuel, o homem do povo, reflecte a sua incapacidade para resistir ao sistema, através da interrogação que abre os dois actos («Que posso eu fazer?», 15).

    -          A recusa do progresso e da cultura

    ·        O Principal Sousa clarifica as directrizes de um regime absolutista, em que cultura é sinónimo de poder e, por isso, deve ser mantida inacessível às massas populares («...a sabedoria é tão perigosa como a ignorância! (...) Sei bem como a palavra “liberdade”, na boca dos demagogos, se torna aliciante ...» 36; «Por essas aldeias fora é cada vez maior o número dos que só pensam aprender a ler... Dizem-me que se fala abertamente em guilhotinas e que o povo canta pelas ruas canções subversivas.» 40).

    -          A corrupção, a imoralidade e a injustiça dos políticos

    ·        D. Miguel põe em destaque a corrupção que garante a autoridade do Poder («A questão que temos de resolver (...) Consiste apenas em chegarmos a acordo acerca da pessoa que mais nos convém que tenha sido o chefe a conjura.» 61), deixando também evidente que são os caprichos pessoais que motivam a actuação política, ao serviço de interesses que se sobrepõem à verdade e à justiça («Para o público não compreender o que se passa, o julgamento será secreto, e para evitar o perdão de el-rei, a execução seguir-se-á imediatamente à sentença.» 65).

    -          A ambição mesquinha e a conspiração

    ·        Beresford mantém-se atento à defesa dos interesses do reino («Neste país de intrigas e de traições, só se entendem uns com os outros para destruir um inimigo comum...» 63), mas apenas por interesses materiais, não escondendo o seu desprezo pelo país onde trabalha, já que «reduz os presentes, a cidade e o país a uma insignificância provinciana e total» («Pretendo uma única coisa de vós: que me pagueis – e bem!» 58)

    -          A traição, a conspiração generalizada

    ·        A corrupção material e moral parece atingir todas as classes sociais, como se depreende da traição de Vicente e de Andrade Corvo e Morais Sarmento («Se eu souber render o peixe, sou capaz de acabar com uma capela... ou chefe de polícia, quem sabe?» 31; «Meu amigo: você desconhece o que se compra de respeitabilidade com uma pensão anual de 800$00...» 47).

    -          A condenação dos ideais maçónicos

    ·        O ataque à Maçonaria, que para os governadores era sinal de agitação e revolução, surge identificado na intervenção de D. Miguel («...aí tendes o chefe da revolta. Notai que lhe não falta nada: é lúcido, é inteligente, é idolatrado pelo povo, é um soldado brilhante, é grão-mestre da Maçonaria e é, senhores, um estrangeirado...» 71) e do Principal Sousa («Os piores, Srs. Governantes, são os pedreiros-livres... Ninguém mais do que eles contribui para o alastramento da gangrena. Quem será o chefe da Maçonaria?» 67).

    -          Os caprichos pessoais dos poderosos contra a vontade do povo

    ·        Os interesses de Estado não são os interesses do povo, mas das classes privilegiadas («Pergunto-vos, senhores: que crédito, que honras, que posições seriam as nossas, se ao povo fosse dado a escolher os seus chefes?» 69), movidas pelas vinganças pessoais e pela ambição («Se eu fosse a falar do ódio que lhe tenho...»; «Agora me lembro de que há anos, em campo d’ Ourique, Gomes Freire prejudicou muito a meu irmão Rodrigo!» 72).

    ·        Matilde, a voz da indignação e do inconformismo, expõe de forma clara a podridão de uma sociedade corrupta e mesquinha («Ensina-se-lhes que sejam valentes, para um dia virem a ser julgados por covardes...»; «Não seria mais humano, mais honesto, ensiná-los, de pequeninos, a viverem em paz com a hipocrisia do mundo?» 83;«...rodeada de inimigos numa terra hostil a tudo o que é grande, numa onde só cortam as árvores para que não façam sombra aos arbustos...» 85).

    Espaço psicológico

    -          As recordações de Matilde de uma felicidade passada ao lado de Gomes Freire remetem para o carácter redentor e purificador do amor, em contraste com a violência e a hipocrisia da sociedade (90-92).


    TEMPO

    Tempo histórico

    -          Século XIX – período posterior às Invasões Francesas, que antecede as primeiras manifestações de revolta popular, que conduzirá à Revolução Liberal.

    -          Século XX – regime ditatorial do Estado Novo, representado por Oliveira Salazar.

    Tempo dramático

    -          0s acontecimentos dramáticos remetem para a referência a factos ocorridos alguns anos antes:

    ·         Manuel relembra as Invasões Francesas e a presença dos ingleses no governo (16)
    ·         Vicente recorda a partida do rei para o Brasil (27)
    ·         O antigo Soldado refere as batalhas ocorridas há dez anos (18)
    ·         Matilde recorda a sua vida com o general e as batalhas em que participou pela Europa (90)

    -          As referências temporais situam em dois dias os acontecimentos mais dramáticos da obra, embora historicamente tudo se tenha passado em cinco meses (Maio/Outubro). A redução temporal traduz simbolicamente a parcialidade da justiça da época, que condena sem provas, e contribui para a intensidade trágica da morte do general.

    -          O Acto I tem início de madrugada e prolonga-se por dois dias:

    ·         «Eram quase cinco horas...» (17)
    ·         «Há dois dias...» (50)
    ·         «Há dois dias que quase não durmo...» (68)

    -          O Acto II começa na manhã do dia em que prenderam Gomes Freire e prolonga-se por seis dias:

    ·         «Passaram toda a noite a prender gente...» (80)
    ·         «Vem aí a madrugada...» (108)
    ·         «Ah! Senhora, se o general estivesse esta noite aqui... » (108)
    ·         «Amanhã, quando começarem a agradecer a Deus a prisão do general...» (109)
    ·         «Depois de amanhã, senhora...» (109)
    ·         «Esta madrugada prenderam Gomes Freire...» (79)
    ·         «Desde aquela noite que só penso em si.» (104)
    ·         «Só ao fim de seis dias lhe abonaram dinheiro para comer...» (111)
    ·         «Há quatro dias que me não deito...» (130)
    ·         «...hoje, 18 de Outubro de 1817.» (129)


    No Acto I, os acontecimentos precipitam-se até à prisão do general, embora no Acto II o tempo flua lentamente, o que intensifica o dramático sofrimento de Matilde, que

    António de Oliveira Salazar

    Político português, filho de António Oliveira e Maria do Resgate, António de Oliveira Salazar nasceu a 28 de abril de 1889, no Vimieiro, uma pequena aldeia de Santa Comba Dão. De família de pequenos proprietários agrícolas, as primeiras letras aprendeu-as em lições particulares, pois não existia escola na pequena aldeia onde nasceu, e, como muitos jovens da sua idade e condição social, fez a formação académica em ambiente fortemente marcado pelo Catolicismo, tendo frequentado durante oito anos, o Seminário Diocesano de Viseu. Tendo desistido definitivamente da vida eclesiástica, embora a influência religiosa assim adquirida na juventude nunca mais o tenha abandonado, Salazar matricula-se na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, onde teve como colega e grande amigo um sacerdote que viria a ser Cardeal Patriarca de Lisboa, Manuel Gonçalves Cerejeira. É nessa altura que se instala a República em Portugal. Estamos no ano de 1910. Ora, como se sabe, os republicanos perseguiram ferozmente o clero, tendo promulgado um conjunto de leis anticlericais que levou ao rompimento das relações de Portugal com a Santa Sé. Por outro lado, durante a República, verificaram-se sucessivas greves, golpes e contragolpes de Estado. Finalmente, em 1917, a entrada de Portugal na Primeira Guerra Mundial veio agravar ainda mais a situação dos Portugueses e as finanças do Estado. Este ambiente político, económico e social conduziu ao crescimento de uma: "Só a ditadura nos pode salvar". 
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    Titulo da Obra "Felizmente ao luar"


    O título é o primeiro contacto que o leitor tem com a obra. Este pode, de imediato, dar pistas para a leitura da obra ou ser de tal forma hermética que não é possível descodificar numa primeira leitura de superfície.Felizmente Há Luar! é um título verbal e sendo uma frase exclamativa remete para a possibilidade de ter sido pronunciada por alguém e de fazer parte do todo que é a obra. Resta, contudo, a dúvida: quem a pronunciou, quando e em que contexto?
    Através da leitura do texto de Raul Brandão, Vida e morte de Gomes Freire, verifica-se que este título comporta consigo verdade histórica pois está presente num documento escrito por D. Miguel Forjaz ao Intendente Geral da Polícia, no dia 18 de Outubro de 1817, como abaixo se transcreve:

    "É verdade que a execução se prolongará pela noite mas felizmente há luar e parece-me tudo tão sossegado que espero não cause isso prejuízo algum."

    Sttau Monteiro tranformou esta afirmação em exclamação e colocou-a como título da sua peça. Deturpou a História? Não, pois com a leitura da mesma verifica-se que é na boca de quem realmente as pronunciou que estas palavras aparecem pela primeira vez:

    "D. Miguel - É verdade que a execução se prolongará pela noite, mas felizmente há luar..."

    Já no final da peça esta expressão é colocada na boca de Matilde. Agora, porém, aparece reforçada pela repetição do advérbio de modo e pelo tom exclamativo conferido pela pontuação:

    "Matilde: - Felizmente - felizmente há luar!"

    Desta vez, não se trata de uma verdade histórica, pois não consta que Matilde tivesse pronunciado tais palavras. São, contudo, estas que vão ser recuperadas pelo autor para dar título à obra. Com que intenção o terá feito?
    Apesar de idênticas, proferidas por personagens de universos distintos, veiculam mensagens diferentes. Na voz de D. Miguel pretendem funcionar como um aviso a todos aqueles que ousam desacatar a ordem. Na voz de Matilde são um grito de esperança para que o povo continue a lutar contra as injustiças de que é alvo.
    O facto de Sttau Monteiro ter colocado esta expressão no final da peça não se deve ao acaso. Com isso pretende não só transmitir uma mensagem de esperança como também confere uma certa circularidade à obra.
    A morte de Gomes Freire não é um fim mas o início de uma nova era.

    terça-feira, 13 de janeiro de 2015

    O estado novo e a censura



    A censura é um instrumento usado por regimes totalitários para impedir que a imprensa e outros meios de difusão de mensagens, incluindo as criativas, como as da arte (pintura, escultura, música, teatro, cinema...) possam pôr em causa a ideologia vigente e fomentar a consciencialização para qualquer revolta contra o regime. 
    A censura fez parte integrante da nossa História, imperou em muitos períodos, constituiu uma arma de defesa da Igreja e do Estado. 
    Em junho de 1926, na sequência do golpe militar de 28 de maio, é instituído um regime de censura prévia. Em 1933, a censura é legalmente instituída através da Constituição e do decreto-lei nº22469. Mais tarde, a Lei nº150/72 prevê que os artigos para publicação tenham uma das seguintes anotações: "autorizado", "autorizado com cortes", "suspenso", "demorado", ou "proibido".
    Durante o Estado Novo, a censura esteve sempre activíssima em todas as vertentes culturais. Na imprensa periódica (onde ficou conhecida por "lápis azul") suprimia, alterava, cortava palavras, expressões ou parágrafos inteiros, adiava ou impedia a saída de notícias…
    A Comissão do Livro Negro do Fascismo afirmou, em 1984, que durante o regime Salazar/Caetano foram proibidas cerca de 3300 obras.
    Escondidos e vendidos apenas a clientes de confiança, em determinadas livrarias era possível adquirir os livros proibidos, numa espécie de jogo do polícia e ladrão. 
    A luta contra a censura foi feita através da Imprensa escrita, em suplementos literários ou juvenis, nas tertúlias, na imprensa clandestina… mas só a Revolução de abril de 1974 pôs fim à censura em Portugal.

    quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

    Gomes Freire de Andrade

    General português nascido em 1757, em Viena, e falecido em 1817. Seguiu a vida militar depois de ter vindo para Portugal aos 24 anos. Combateu em Argel (1784), na Rússia (1788), na Guerra do Russilhão (1790), na Guerra das Laranjas (1801) e na Guerra Peninsular, só deixando a carreira das armas após a derrota de Napoleão em 1814. Ligado aos ideais progressistas e membro da Maçonaria, foi acusado de participar na conspiração de 1817, o que lhe valeu a prisão e a forca nesse mesmo ano. Surge como personagem na peça de Luís de Sttau Monteiro Felizmente há Luar (1961).